Bruno Rua

Efeitos colaterais do Mounjaro (tirzepatida): o que fazer diante de cada um deles

Por Bruno Rua, nutricionista clínico — CRN-1 5887 · Publicado em 4 de agosto de 2026 · Leitura de 8 minutos

Quase toda consulta com um paciente em uso de Mounjaro passa, em algum momento, pela mesma pergunta: "isso que estou sentindo é normal?". Na maioria das vezes é. Só que normal não quer dizer que não haja nada a fazer. Abaixo está o manejo de cada efeito colateral que mais aparece no meu consultório.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns do Mounjaro

São gastrointestinais: náusea, vômito, constipação, diarreia, dor e desconforto abdominal, redução do apetite. Uma análise conjunta dos estudos de fase 3 do medicamento para emagrecimento (SURMOUNT-1 a 4) mostrou que esses eventos são predominantemente leves a moderados. Concentram-se no período de escalonamento de dose e tendem a diminuir com o tempo; menos de um terço dos pacientes chegou a precisar de medicação sintomática para controlá-los.¹

Com menor frequência, aparecem queda de cabelo (geralmente ligada à velocidade da perda de peso), fadiga e perda de massa magra.

Vale uma distinção que faço questão de explicar em consulta. Perda de massa magra é um risco associado ao emagrecimento rápido combinado com proteína insuficiente e falta de treino de força — e por isso é o mais evitável de todos, com estratégia nutricional adequada.

Náusea com Mounjaro: por que acontece e o que fazer

A náusea acontece porque a tirzepatida retarda o esvaziamento gástrico. A comida fica mais tempo no estômago, o que faz parte do próprio mecanismo de saciedade da medicação. O problema é intensidade: refeições grandes ou muito gordurosas pioram a sensação.

Comer porções menores, com mais frequência ao longo do dia, em vez de três refeições maiores costuma ser uma solução eficiente. Reduzir temporariamente frituras e alimentos gordurosos também ajuda, porque eles retardam ainda mais o esvaziamento gástrico. Evite deitar logo depois de comer. E distribua os líquidos ao longo do dia — beber muito volume durante a refeição costuma piorar o desconforto em quem já está enjoado.

A náusea é mais intensa nas primeiras semanas e a cada aumento de dose, tendendo a melhorar conforme o corpo se adapta. Esse padrão de escalonamento e redução ao longo do tempo foi confirmado nos estudos clínicos do medicamento.¹

Vômito persistente: quando é motivo de alerta

Vômito ocasional pode acompanhar o início do tratamento ou o aumento de dose. Vômito persistente é outra história: o risco ali é desidratação e desequilíbrio eletrolítico, e isso não se resolve com ajuste alimentar.

Procure o médico prescritor se o vômito não melhorar em 24 a 48 horas, se você não conseguir manter líquidos, se sentir tontura importante, boca muito seca ou urina escassa e escura. Nesses casos o manejo pode envolver ajuste de dose, suspensão temporária ou investigação de outras causas. É uma decisão médica, não nutricional.

Constipação: o efeito colateral mais subestimado

O trânsito intestinal fica mais lento com a medicação. Some a isso o fato de que quem usa Mounjaro come menos, naturalmente — e como boa parte da fibra vem do volume de comida, comer menos costuma significar comer menos fibra também, mesmo sem perceber.

Aqui a estratégia é priorizar fibra por densidade, já que o volume total de comida caiu: leguminosas como feijão, lentilha e grão-de-bico, aveia, chia, linhaça, frutas com casca quando toleradas. Hidratação constante ao longo do dia ajuda mais do que beber água só quando bate a sede. Movimento diário, mesmo que leve, já favorece o trânsito — uma caminhada resolve mais do que parece.

Aumente a fibra aos poucos. Subir rápido demais troca constipação por gases e distensão, o que ninguém quer. E se persistir mesmo assim, vale discutir suplementação de fibra ou ajuste terapêutico com quem acompanha o caso.

Fadiga: por que o Mounjaro pode deixar você mais cansado

Parte da fadiga vem da própria redução calórica: ingerir menos energia, sobretudo nas primeiras semanas, naturalmente deixa menos energia disponível. Outra parte pode vir de carboidrato insuficiente, hidratação inadequada, sono ruim ou deficiências nutricionais que passam despercebidas quando o apetite cai.

A causa mais comum de fadiga que vejo no consultório é simples: déficit calórico agressivo demais. Garantir que a redução não seja exagerada já resolve boa parte do problema. Mantenha carboidratos de qualidade nas refeições — frutas, tubérculos, cereais integrais — em vez de eliminá-los, e distribua a proteína ao longo do dia. Se a fadiga persistir além das primeiras semanas, vale investigar ferro, B12 e vitamina D.

Queda de cabelo: relação com a velocidade da perda de peso

A queda de cabelo associada a medicações para emagrecimento costuma ser eflúvio telógeno, uma resposta do folículo capilar a perda de peso rápida ou déficit calórico agressivo. Não é um efeito direto da tirzepatida no couro cabeludo, e na grande maioria dos casos é temporária.

Proteína adequada ajuda bastante aqui — o cabelo é um dos primeiros tecidos a economizar recursos quando falta proteína no dia. Evitar perda de peso muito acelerada e manter ferro, zinco e vitaminas do complexo B em dia completam a estratégia. O resto é paciência: o ciclo capilar costuma normalizar em alguns meses depois que o peso estabiliza.

Queda intensa, persistente ou com falhas localizadas foge desse padrão. Vale avaliação dermatológica.

Mounjaro causa perda de massa muscular?

Pode causar, quando a perda de peso vem acompanhada de proteína insuficiente, ausência de treino de força e déficit calórico agressivo. Parte do peso perdido em qualquer emagrecimento é massa magra — a questão é qual fração, e isso depende diretamente de proteína e treino, não da medicação em si.

O estudo de composição corporal por DEXA do maior ensaio clínico de tirzepatida para emagrecimento, o SURMOUNT-1, quantificou essa proporção. Em 72 semanas de tratamento, cerca de 75% do peso perdido veio de massa gorda e 25% de massa magra, proporção comparável à observada em outras formas de perda de peso e considerada esperada quando não há restrição proteica extrema.² Duas pessoas podem perder os mesmos 10 kg com resultados diferentes dentro dessa faixa. Uma preserva mais músculo, outra menos.

Quanto de proteína comer usando Mounjaro

A faixa de referência para preservação de massa magra é 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso corporal por dia, distribuídos em 3 a 5 refeições e associados a treino de força regular. Precisa ser individualizada conforme idade, função renal, nível de atividade e objetivo — não é número para aplicar sozinho.

O consenso conjunto EASO-EFAD-ECPO sobre terapias baseadas em incretina reforça esse ponto: o objetivo do tratamento não deveria ser só a perda de peso, mas a preservação de função física, massa muscular e qualidade de vida ao longo do processo.³

Perguntas frequentes sobre efeitos colaterais do Mounjaro

Os efeitos colaterais do Mounjaro diminuem com o tempo?

Em geral, sim. Náusea, vômito e desconforto gastrointestinal costumam ser mais intensos nas primeiras semanas e a cada aumento de dose, e tendem a reduzir conforme o corpo se adapta — padrão documentado nos estudos clínicos de fase 3 do medicamento.¹ Constipação e fadiga podem persistir em alguns pacientes e merecem ajuste específico.

Preciso parar o Mounjaro se tiver efeitos colaterais?

Na maioria dos casos leves a moderados, não. O manejo nutricional descrito acima costuma resolver, e a maior parte dos pacientes nos estudos clínicos não precisou de medicação adicional para controlar os sintomas.¹ Vômito persistente, sinais de desidratação, dor abdominal intensa ou sintomas que impeçam comer e beber são exceção, e exigem contato médico imediato.

Quanto de proteína preciso comer usando Mounjaro para não perder músculo?

Entre 1,2 e 1,6 g por quilo de peso corporal por dia, distribuídos ao longo do dia e associados a treino de força. É a faixa de referência para preservação de massa magra em emagrecimento, ajustada individualmente.³

A queda de cabelo com Mounjaro é permanente?

Não costuma ser. É tipicamente eflúvio telógeno, associado à velocidade da perda de peso, e reverte com a estabilização do peso e ingestão proteica adequada. Casos persistentes ou atípicos merecem avaliação profissional.

Mounjaro causa diarreia ou prisão de ventre?

Pode causar os dois — em pacientes diferentes, ou em momentos diferentes do mesmo tratamento. Ambos estão entre os efeitos gastrointestinais mais frequentes documentados nos estudos clínicos¹ e respondem a ajuste de fibra, hidratação e distribuição das refeições.

Quanto de peso perdido no Mounjaro é músculo?

Em média, cerca de 25%, proporção medida por DEXA no estudo de composição corporal do SURMOUNT-1.² Os outros 75% vêm de massa gorda. É considerada proporção esperada, e melhora com proteína adequada e treino de força.

Referências

  1. Rubino D, Gerber C, Cao D, et al. Gastrointestinal tolerability and weight reduction associated with tirzepatide in adults with obesity or overweight with and without type 2 diabetes in the SURMOUNT-1 to -4 trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2025. DOI: 10.1111/dom.16176.
  2. Look M, Dunn JP, Kushner RF, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2025;27:2720-2729. DOI: 10.1111/dom.16275.
  3. Dobbie LJ, Tolvanen L, Alves D, et al. Nutritional, functional, and psychological considerations for incretin-based therapies in adults — an EASO, EFAD, and ECPO Consensus Statement. The Lancet Diabetes & Endocrinology. Publicado online em 8 de julho de 2026. DOI: 10.1016/S2213-8587(26)00122-1.

O perfil de eventos adversos da tirzepatida descrito neste artigo também corresponde ao que consta na bula do medicamento e nos documentos regulatórios da ANVISA, EMA e FDA.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica ou nutricional individualizada.

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